Reflexão sobre o verdadeiro capital de risco: a agricultura.
Há perdas que doem mais do que o dinheiro. Este texto nasceu da morte de uma vitela — a primeira Beefmaster nascida na Terra Quente Transmontana — e tornou-se uma reflexão sobre o risco, o sacrifício e a dignidade de quem vive da terra.
Quando a terra nos tira o que a terra nos deu
Ontem, perdi uma vitela.
A primeira fêmea de Beefmaster nascida em Trás-os-Montes, em Mirandela, na Terra Quente Transmontana.
A última vez que a vi foi na quinta-feira passada, quando publiquei fotografias dos três vitelos que nasceram nos últimos meses.
Na sexta choveu o dia todo. Estive com as vacas, mas não a vi.
Pensei que estivesse deitada, escondida na erva, abrigada da chuva.
Sábado também não a vi. Achei estranho, mas não liguei. Estava frio, estava húmido — um animal com uma semana de vida tende a recolher-se.
Domingo passei de fugida. Segunda-feira encontrei a pele. Os cães andavam com ela.
Este ano já é o segundo animal que perco.
Em maio ou junho perdi outro — um vitelo nascido em dezembro de 2024, pronto para vender. Ia render mais de mil euros.
Era o mais forte do grupo, e de manhã estava cheio de saúde. À tarde, encontrei-o tombado, fulminado.
Veterinários disseram: parasitas.
Um tipo raro, desses que aparecem em anos muito húmidos.
E como trabalho em agricultura biológica, não posso tratar preventivamente — só depois, reativamente.
Perdi o animal e, depois, lá tive de gastar mais de quinhentos euros em tratamentos, desparasitações e análises obrigatórias.
Este ano, só em sanidade animal, irei gastar mais de mil euros.
E agora esta vitela.
Nasceu prematura. Não resistiu.
É duro — mas é a realidade.
O verdadeiro investimento de risco
Quando me falam em investimentos de risco, lembro-me disto.
Falam-me de capitais de risco, de criptomoedas, de ações.
Mas o meu capital — o capital de um agricultor — também é de risco.
As minhas vacas, as minhas oliveiras, as minhas amendoeiras, tudo pode desaparecer de um momento para o outro.
Há meses, um raio matou dezenas de vacas em Espanha.
No Minho, fulminou um rebanho de cabras.
A agricultura é isto: um negócio onde se pode perder tudo em minutos.
E, ao contrário dos mercados financeiros, aqui não se perdem números — perdem-se vidas.
Perdem-se os animais, o tempo, a saúde e, às vezes, o ânimo.
Perdem-se anos de trabalho, e ganha-se reumatismo, hérnias, queimaduras de sol, dores nas costas.
E quando muito, o agricultor recebe 120 euros por vitelo, um apoio que vem de Bruxelas, repartido conforme o número de nascimentos.
Perdi dois vitelos e recebo 240 euros.
É isto.
A terra não é um valor seguro
Há quem diga que a terra é um valor seguro.
Mas a terra, por si só, não vale nada — a não ser que esteja num perímetro de rega, ou em zona urbanizável.
É preciso trabalhar a terra. E trabalhar a terra custa.
Custam as sementes, os tratos, os animais, os impostos, o corpo, a alma e a saúde.
E depois vêm as doenças — a Xylella, a Gafa, a vespa do castanheiro, as febres hemorrágicas, a língua azul…
Doenças antigas e novas, muitas sem tratamento nem vacina.
E um agricultor vê árvores centenárias a morrer, ramos secos, oliveiras queimadas, azeites a perder qualidade — e com eles morre também um pedaço da nossa história.
A romantização da agricultura
Quando se diz que o agricultor é livre, que vive em contacto com a natureza, que é uma vida bonita — não é bem assim.
É uma vida de risco permanente, de sacrifício constante e de orgulho silencioso.
E quem fala com um agricultor devia fazê-lo de chapéu tirado e voz baixa, com respeito.
Porque o agricultor não é uma classe menor.
É, talvez, a mais nobre das profissões.
A mais arriscada.
E a mais esquecida.
📍 Mirandela, Terra Quente Transmontana
✍️ Pedro Alexandre Sil Barreiros Nunes Rodrigues
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