Quando o medo se torna negócio e a paz uma desculpa para vender armas
Por Pedro Alexandre Sil Barreiros Nunes Rodrigues
Quando começou a guerra da Ucrânia — a verdadeira, a das balas e crateras — poucos acreditavam que o conflito se transformasse num teatro permanente de interesses. O que parecia ser uma defesa de soberania tornou-se o maior negócio do século para os “falcões da guerra”: os fabricantes de medo.
O despertar dos falcões
Com o início dos combates, a Ucrânia deixou de ser apenas um país em guerra e passou a ser uma fonte inesgotável de contratos. As indústrias de defesa — que andavam a meio-gás desde o fim da Guerra Fria — renasceram das cinzas.
Os governos europeus, apanhados entre o medo e a pressão mediática, abriram cofres que há décadas pareciam fechados.
Tanques, drones, munições, uniformes, tecnologia — tudo multiplicou de preço e de procura. E por detrás do discurso da “solidariedade europeia”, ergueu-se uma nova economia: a economia da guerra.
Um tigre de papel com dentes de ouro
A narrativa dominante insiste: “os russos vêm aí.”
Mas a realidade tem mostrado o contrário. A Rússia, com o seu colosso militar e arsenal nuclear, tem tropeçado num adversário exausto, mas resiliente. Um país destruído, sem logística, sem estabilidade política, tem resistido.
A Rússia é, militarmente, um tigre de papel: poder de fogo sem eficiência, músculos sem coordenação, propaganda sem resultados.
E, ainda assim, é à sombra desse “inimigo” que se justificam orçamentos e cortes sociais em todo o continente.
O novo campo de batalha: o orçamento europeu
O que está em jogo já não é apenas território, é dinheiro.
A Europa, que durante décadas investiu na coesão social, na agricultura e no Estado-providência, começa agora a desviar recursos para o fabrico de tanques e sistemas antimísseis.
Cada euro gasto em armamento é um euro que não chega às escolas, aos hospitais, às aldeias do interior, às famílias.
Os “falcões” agradecem.
Empresas como a Lockheed Martin, a BAE Systems e a Rheinmetall anunciaram lucros históricos em 2023. A guerra tornou-se o negócio mais previsível e lucrativo do planeta.
Medo, lucro e propaganda
Há quem acredite que defender a paz passa por reforçar o arsenal.
Mas a paz verdadeira não nasce do medo.
O medo serve quem o fabrica — e quem o vende.
Enquanto discutimos ameaças distantes, a Europa enfraquece-se por dentro: famílias mais pobres, agricultores sem margem, serviços públicos em colapso.
É um campo de batalha silencioso, mas real.
Paz armada ou sociedade armadilhada?
Sim, é importante manter capacidade de defesa — a história ensina-nos que a dissuasão evita guerras.
Mas também ensina que, quando o medo se torna a principal moeda política, a liberdade e o bem-estar são os primeiros a cair.
A força de um povo não se mede em tanques, mede-se em dignidade.
E nenhum tanque, por mais moderno que seja, pode proteger a dignidade de quem tem fome.
📎 Notas do Sil — O Mercado da Guerra em 6 pontos
Explosão de gastos militares.
Entre 2021 e 2024, a despesa em defesa dos países da UE cresceu cerca de 35%, segundo a European Defence Agency.
Lucros recorde.
A Lockheed Martin aumentou em 27% o volume de encomendas diretamente ligadas à guerra na Ucrânia. A Rheinmetall alemã duplicou os lucros operacionais em 2023.
Substituição de prioridades.
Ao mesmo tempo que se cortam fundos agrícolas e sociais, a UE lança o European Peace Facility e o Defence Fund, que já absorvem milhares de milhões de euros anuais.
A Rússia: colosso com falhas internas.
Relatórios do Institute for the Study of War apontam fragilidades logísticas, desmotivação das tropas e dependência tecnológica obsoleta.
O lobby da defesa em Bruxelas.
Os gastos declarados com lobbying militar cresceram 40% entre 2022 e 2024, segundo o EU Transparency Register.
Custo social.
O reforço das defesas europeias implica cerca de 70 mil milhões de euros adicionais por ano — verba equivalente ao orçamento conjunto da agricultura e da coesão social em vários países.
Fecho
Os falcões da guerra sempre existiram.
Mas agora aprenderam a voar sobre democracias, orçamentos e consciências.
A verdadeira luta — a que define o futuro — é contra o medo que eles nos vendem.
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