Os desafios nos negócios são inevitáveis, mas é a nossa resposta que define a trajetória. Olhando além do obstáculo imediato, existe um reino de oportunidades e aprendizado.

Esta imagem, para quem é criador de gado — e sobretudo para quem cria vacas —, é dura. Revoltante, até.
Quando um produtor envia um animal para abate, paga por cada quilo do animal, mas o matadouro fica com tudo o que tem valor: a pele, os cornos, a cabeça (retida integralmente devido à BSE) e até as tripas.
Tudo tem valor. Tudo é aproveitado.
E, no entanto, o agricultor paga para entregar riqueza.
Depois, entra-se numa superfície comercial estrangeira, moderna e luminosa, e encontra-se uma pele de vaca à venda por 299 euros.
Um vitelo de seis meses, em 2024, valia o mesmo.
Houve alturas em que se vendiam vitelos bons, de qualidade, por 600 euros.
E agora, a pele do animal vale metade disso — e não é o criador quem ganha.
A base da pirâmide
Claro, a pele é tratada, curtida, transformada. Passa por processos industriais complexos.
Mas o produtor é sempre o elo mais fraco da cadeia.
É a base da pirâmide — aquela que sustenta todos os outros setores da fileira agroalimentar.
Sem ele, não há fileira. Mas é o único que trabalha de sol a sol e é o último a ser pago — e o primeiro a ser esquecido.
“Do animal, nada se perde — exceto o respeito por quem o criou.”
A indústria do aproveitamento: o que vale cada parte do animal
O setor de abate e transformação é altamente eficiente.
Praticamente nada se desperdiça de um animal abatido — e cada componente tem valor e destino próprio.
A seguir, ficam os principais exemplos técnicos que mostram o quanto o produtor entrega e o quanto o sistema aproveita.
1. Pele: o couro que veste o luxo
A pele representa cerca de 6 a 8% do peso total do animal.
Após o abate, é retirada e enviada para curtumes, onde passa por processos de curtimenta vegetal, mineral ou sintética.
Principais destinos industriais:
- Calçado e marroquinaria (sapatos, botas, carteiras, cintos).
- Estofos automóveis e mobiliário de luxo.
- Têxteis e decoração (tapetes e revestimentos naturais).
- Peles naturais para instrumentos musicais (tambores, bongós).
💶 Valor de mercado: entre 100 e 500 euros por pele curtida, conforme a origem e o acabamento.
É irónico que uma pele que um dia cobriu um ser vivo criado com sacrifício se transforme em artigo de decoração vendido a um preço que rivaliza com o valor de um vitelo inteiro.
2. Tripas e intestinos: das salsichas às cordas de violino
Os intestinos, após limpeza e tratamento com sal, são utilizados para:
- Produção de cordas de instrumentos musicais (violino, harpa, guitarra).
- Fios cirúrgicos absorvíveis, feitos de colagénio natural.
- Invólucros naturais para enchidos e salsichas.
- Extração de enzimas e colagénio para cosmética e farmacêutica.
Mesmo o que parece sem valor alimenta indústrias inteiras de elevado valor acrescentado.
3. Cornos e ossos: do campo para o artesanato e a indústria
Os cornos e ossos, limpos e tratados, têm múltiplos usos:
- Cabos de facas, bengalas e escovas.
- Botões, peças de bijuteria e objetos decorativos.
- Farinha de osso e de corno, fertilizantes ricos em fósforo e cálcio, essenciais na agricultura biológica.
- Teclas de piano e substitutos de marfim em instrumentos e mobiliário.
Nada é desperdiçado: o que um dia pertenceu ao animal, transforma-se em produto de luxo ou matéria-prima para a agricultura.
4. Cabeça e ossos: colagénio, gelatina e cola
A cabeça, cartilagens e ossos são fontes de colagénio e gelatina, usadas em:
- Alimentação (gelatinas, doces e sobremesas).
- Farmacêutica (cápsulas e suplementos).
- Indústria de colas, usada em carpintaria e restauro.
- Decoração rústica ou artesanal, com crânios e chifres tratados.
Até a cola que segura um móvel pode ter origem num animal criado por um agricultor que quase não recebeu pelo seu trabalho.
5. Gordura e tecidos moles: sabão e biodiesel
O sebo e as gorduras são refinados e transformados em:
- Sabões, cosméticos, lubrificantes e velas.
- Biodiesel de origem animal.
- Base para pomadas e cápsulas farmacêuticas.
Nada se perde. Tudo é transformado.
Mas o produtor continua a ser quem menos ganha.
Reflexão final
Criou-se, infelizmente, a mentalidade de que “agricultor é quem não sabe fazer mais nada.”
Mas a verdade é o contrário: ser agricultor é saber fazer tudo o que sustenta o resto.
É produzir o alimento, a matéria-prima, o couro, a energia.
É ser o início de tudo — e, no entanto, ser tratado como o fim da linha.
A fileira da carne e do couro é uma cadeia de valor altamente estruturada, mas a distribuição da riqueza é profundamente injusta.
O produtor, que cria, alimenta, investe e assume o risco, é quem menos recebe — e sem ele, todo o sistema colapsa.
Eu, que gosto do campo e da liberdade, olho para estas peles penduradas e penso:
não há nada mais valioso do que o trabalho invisível de quem faz nascer tudo o que existe antes da indústriae que, no fim, é sempre quem menos ganha.
